‘A cidade acabou’, conta morador de Nova Friburgo
( Veja imagens dos estragos na Região Serrana após a chuva )
O Rio Bengala, que corta a cidade de cerca de 190 mil habitantes, transbordou e as águas não baixaram. Carros, ônibus e caminhões foram arrastados pela enxurrada, e ruas que concentram comércio, bancos e residências viraram rios de lama. Segundo o administrador Bruno Thurler, anos, a água subiu cerca de dois metros.
Em um dia, toda a chuva de um mês
Segundo o Inmet, em 24 horas — das 9h de terça-feira até as 9h de quarta — choveu em Friburgo 180mm, praticamente o esperado para todo o mês de janeiro. De acordo com o Climatempo, apenas entre as 2h e as 3h da madrugada choveu 60mm (um temporal de 25mm por hora já é considerado forte).
A região do Centro foi duramente castigada. A Praça do Suspiro, ponto turístico da cidade, foi tomada pela lama. Por trás do teleférico, a terra desceu e invadiu a igreja de Santo Antônio. A piscina, a quadra e toda a área de lazer de um hotel desapareceram sob as águas. A avenida principal, a Alberto Braune, virou uma alameda de barro. De uma das casas que ficaram soterradas, apareciam apenas a porta e uma janela. Com o comércio fechado e sem transporte, as pessoas tinham dificuldade de comprar água e comida. Muitos postos já estavam sem combustíveis, de acordo com moradores.
( Vídeo: sobrevoo nas áreas atingidas )
O principal hospital público, o Raul Sertã, municipal, também ficou alagado, o que tornou crítico o atendimento aos feridos. Um hospital de campanha foi montado na sede da prefeitura. Também atingido por uma encosta, o maior hospital particular de Friburgo, o São Lucas, também teve o atendimento afetado. Informações não confirmadas indicam que uma escola foi usada para concentrar os corpos das vítimas.
A falta de informações, piorada pela pane no fornecimento de energia e boa parte dos telefones, tanto fixos como os celulares, deixou muitas pessoas sem saber se seus parentes e amigos estavam bem.
Chorando, o médico Mário Bonin disse que as pessoas estão em choque. Ele orientou seus vizinhos a ficar em casa:
— Meu vizinho está morto. Na Rua Cristina Ziede, caiu tudo. Já se sabe que morreram 12 pessoas numa rua só. Caíram prédio, casas, tudo o que era do lado onde tinha barranco, caiu tudo. Tem muitos helicópteros voando. Estamos com tudo parado, sem telefone, água, energia, internet. Não temos como circular. Meu irmão é engenheiro e está tentando resgatar uma pessoa sob uma laje de concreto. Não sabemos se amigos ficaram feridos ou mortos.
A professora Lucieni de Oliveira, de 50 anos, que mora no Centro, relata que as pessoas estão muito tristes, desoladas, e com medo de que novas chuvas causem ainda mais estragos:
— Não temos sinal de nada, nem de celular. Muitos resgates, muitos corpos acontecem o tempo todo. O local que a minha filha trabalhava acabou. É um quadro terrível. Da minha janela ouço barulho das barreiras caindo. Prédios bons, antigos, foram abaixo.
No bairro de Olaria, onde um prédio de três andares desabara na tarde de anteontem, o trabalho de busca aos desaparecidos continuava. Um homem e uma criança morreram.
A última grande cheia do Rio Bengala ocorreu no Natal de 1996. De acordo com moradores, a enchente de ontem superou a de 14 anos atrás, apenas comparável à cheia de fevereiro de 1979.
Nenhum comentário:
Postar um comentário